domingo, 8 de maio de 2016

Alunos de Jornalismo fazem visita à Casa Pública

O Centro Acadêmico de Comunicação da UFRRJ (Caco) promoveu, no último dia 3, uma excursão que levou os alunos do curso para conhecerem a Casa Pública, o primeiro centro cultural de jornalismo do Brasil. Além de fazerem um tour pelo espaço, os 20 sorteados puderam conferir uma exposição de fotos, conversar sobre jornalismo independente e ainda assistiram a um documentário.

Com o apoio das fundações Ford, Oak Foundation, Porticus e Open Society Foundations, o centro é uma iniciativa da Agência Pública, organização sem fins lucrativos de jornalismo investigativo. De acordo com o site, o objetivo da instituição é estimular a produção de conteúdos de interesse público que fujam da tradicional fórmula da indústria da notícia. O espaço foi inaugurado em março e, segundo a gerente Mariana Simões, tem recebido muitos visitantes.

A visita começou com um passeio pelas instalações, guiado por Mariana. Localizado em Botafogo, o lugar tem três andares e diversos mezaninos. A casa dispõe de uma sala para exposições, um local para debates e exibições de documentários, espaços para entrevista e pesquisas, laboratórios de produção e dormitórios para residência de jornalistas estrangeiros.  

A gerente também preparou uma apresentação da Agência Pública, que explicou detalhadamente e esclareceu dúvidas dos futuros jornalistas sobre as metodologias, os processos de apuração, o sistema de reprodução dos conteúdos - todas as reportagens da Pública são reproduzidas livremente por diversos veículos, sob a licença creative commons – e o histórico da instituição, além de destacar projetos que tiveram grande repercussão.

Os alunos também conferiram uma exposição de fotojornalismo organizada pela fotógrafa Tina Leme Scott, gerente de projetos da Pública. “Legados” mostra a verdadeira herança deixada pelos grandes eventos sediados no Brasil. Com participação de fotojornalistas de diversos estados, o trabalho mostra violações aos direitos humanos sofridos por uma parcela da população em decorrência da Copa e das Olimpíadas, como violência policial e desabrigo de famílias.

Para encerrar, os visitantes assistiram à exibição do documentário “É Proibido Falar em Angola”. Produzido por Natália Viana, diretora da Pública, e Eliza Capai, o vídeo mostra a censura aos opositores do governo do presidente José Eduardo dos Santos. Apesar de tentar ser reconhecido como uma democracia, o governo angolano persegue – e prende – quem se organiza para manifestar contra a gestão de Santos, que já dura quase 40 anos. Passando uma temporada no Rio para ajudar na gestão da Casa, Natália se reuniu com os alunos e dividiu sua experiência. Além de ter seus equipamentos roubados, o local em que estava hospedada vivia cercado de policiais e ela era constantemente surpreendida por pedidos de fotos e interrogatórios.  

O interesse do centro acadêmico teve início quando Marina Dias, coordenadora de comunicação da Agência, esteve na Rural para apresentar o projeto da Casa Pública. O espaço não funciona às terças-feiras, mas foi aberto especialmente para receber os alunos. “A escolha se deu por ser a primeira casa de jornalismo do país e por acreditarmos que a Pública faz um trabalho diferenciado do grande mercado, é uma outra perspectiva e uma outra realidade no trabalho do jornalista. Conseguimos ônibus da universidade, o contato com a Casa foi muito amigável e vimos que é possível sair da Rural e conhecer outros espaços. Levar alunos, principalmente do 1º período, para conhecer foi incrível para que eles entrem na universidade e saibam que podem pensar formas criativas de produzir jornalismo”, destacou Mateus Cabot, aluno do 7º período e integrante do Caco.

“Foi engrandecedor, pois nos permitiu enxergar um jornalismo além daquele que conhecemos. O fato de a Agência Pública ser sem fins lucrativos mostra um total engajamento em fazer reportagens livres das amarras que o mercado midiático tem e expõe que as mulheres são capazes, sim, de gerir grandes projetos”, afirmou Gabrielle Araújo, do 1º período. O aluno do 5º período Lucas Flegler destaca a importância da visita técnica, coisa que não ocorre com frequência no curso. “A Casa Pública tem muitos projetos interessantes. Creio que todos os alunos que foram à visita saíram com um fôlego a mais. Como um projeto de jornalismo investigativo, inspira os estudantes a ter o contato com esse viés do curso. Acho que a coordenação deveria implementar a disciplina na grade”.


A Casa Pública está aberta de quarta a sábado, das 11h às 19h. O espaço está localizado na Rua Dona Mariana, número 81, em Botafogo. 

Dilma pisa na areia, mas o mar não serena

“A marola se acumula e vira uma onda”. Presidenta reavive declaração polêmica de Lula e explica cenário da crise.


Sete anos depois do estopim da Grande Recessão, o Brasil vive os efeitos da dificuldade da recuperação das economias dos Estados Unidos e da União Europeia.  A alta da inflação, o corte de verbas dos ministérios e o reajuste fiscal são consequências que agravam a crise política enfrentada pelo governo atual. Enquanto a oposição clama por impeachment, a presidenta se depara com a queda de popularidade e dos níveis de aprovação de sua gestão.  

A especulação e crédito em excesso resultaram na eclosão da bolha imobiliária nos Estados Unidos em 2007, o que gerou a crise econômica. Detentor de, aproximadamente, 24% do PIB mundial, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), o desaquecimento da economia norte americana afetou as demais, entre elas, a União Europeia, que, nesse ano, perdeu mais de 450 bilhões de euros em valor, a maior queda desde 2008.

O ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, durante seu segundo mandato, afirmou que a crise era um “tsunami” nos EUA, e se chegasse ao Brasil, seria uma “marolinha”. Em 2015, a presidenta Dilma Rousseff reconheceu os efeitos da crise sobre a economia brasileira, ainda que o país não viva um momento de austeridade fiscal, como a Grécia. No acumulado de 12 meses, a inflação chegou a 8,47% e o dólar bateu a casa dos R$4 devido à queda das bolsas de valores da China, principal importador dos commodities brasileiros. A fim de cobrir os rombos dos cofres públicos, o Ministro da Fazenda Joaquim Levy propôs uma série de ajustes fiscais, após o orçamento obter um déficit de 6,7% do PIB em 2014.   

Com o ápice da crise, diversas áreas são afetadas. O Ministério da Saúde não está repassando verbas para os hospitais públicos. O Ministério dos Transportes também sofreu com os cortes e várias obras podem não ser cumpridas. O Ministério da Ciência, Tecnologia e Informação receberá 24% menos verba em 2016, o que poderá comprometer o avanço da ciência brasileira. Programas do governo como Minha Casa, Minha Vida também sofreram baixas.

Além da recessão econômica, Dilma enfrenta instabilidade política e um momento de rejeição. Segundo Pesquisa Ibope realizada em setembro, 69% dos entrevistados avaliam a gestão como ruim/péssima. Esse índice é decorrente de uma série de escândalos que envolvem o governo. O Tribunal de Contas da União (TCU) detectou pedaladas fiscais, operações para maquiar o resultado das contas públicas. Durante a gestão de Rousseff, também foi divulgada a Operação Lava Jato, maior investigação da Polícia Federal que revelou a existência de um vasto esquema de corrupção na Petrobras, envolvendo políticos da base aliada, grandes nomes da oposição e diversas empreiteiras.  Outro fator agravante é a oposição na Câmara, presidida pelo deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que, em julho, declarou ter rompido com o governo, após ser acusado de ter recebido US$ 5 milhões de propina por um contrato da Petrobras.

Brasil doente
Segundo Afonso José de Matos, diretor-presidente de Planejamento e Organização de Instituições de Saúde (Planisa), a crise econômica ainda não atingiu a saúde pública com a mesma intensidade de outros setores. Contudo, foram retirados cerca de R$ 13 bilhões do orçamento, o que agrava a escassez de recursos e de profissionais e dificulta a gestão dos diretores administrativos. Para amenizar o impacto, são feitas parcerias com o setor privado. O desemprego atual gerou uma queda nos convênios de planos de saúde e resultou num aumento de 30% da demanda dos hospitais públicos.

Uma técnica de enfermagem do Hospital Municipal Salgado Filho, da cidade do Rio de Janeiro, que preferiu não se identificar, conta o caos da falta de empregados. “Não tem mais terceirizados no hospital. Sobrecarregou o serviço dos matriculados. Atualmente, em um domingo só tem na emergência três enfermeiros, sendo que são 15 setores. Um enfermeiro olha três ao mesmo tempo. Vão chamar agora os concursados de 2011, porque muitos entraram com processo para obrigar o hospital chamar. A sala do cateterismo venoso e cirurgias de baixa periculosidade está fechada porque não tem funcionário. Os matriculados estão se aposentando, os terceirizados foram demitidos e não tem ninguém para entrar no lugar”. Nos últimos meses, demissões nos hospitais públicos se tornaram recorrentes. No Hospital das Clínicas de Salvador, foram 450 terceirizados demitidos em outubro. A previsão é que o número de exonerações chegue a 200 até o fim do ano no Espírito Santo. No Rio de Janeiro, cerca de 580 profissionais se desligaram da rede municipal no ano passado, a maioria sob alegação de sobrecarga por falta de funcionários. 

A falta de novos concursos gerou uma alternância de médicos e enfermeiros no Hospital Infantil Municipal Ismélia da Silveira e na UPA Walter Garcia, em Duque de Caxias. “A mão de obra está escassa por sermos também especializados em pediatria. A equipe de enfermagem, tanto de nível superior quanto de nível médio, permaneceu a mesma. Foram subdivididas em dois grupos de tarefas de trabalho para o hospital e para a UPA. Então o quantitativo de profissionais tem prejudicado nosso trabalho”, conta Vera Lúcia Quirino, enfermeira do hospital há 25 anos.

Além da escassez de trabalhadores, também há reclamações da má qualidade dos materiais e da falta de reajuste salarial. No próximo ano, o orçamento prevê um corte de R$3,8 bilhões para a área da saúde.

Sempre acabou em pizza


    Apesar de o momento apontar que o Brasil vive o período político mais conturbado da Nova República, desde a década de 80 o país presencia uma série de crises político-econômicas, escândalos de corrupção e falta de representatividade em seus governos.

Depois de 21 anos de Ditadura Militar, a população reconquistou a oportunidade de eleger seu novo representante. Com mais de 42% dos votos, o economista Fernando Collor de Mello venceu as eleições. O descontentamento com o “caçador de marajás” começou quando foram anunciados os pacotes de modernização administrativa, o Plano Collor. Com a desculpa de combater a inflação, a população teve suas contas correntes e poupanças confiscadas. O quadro foi agravado quando Pedro Collor denunciou a uma revista o envolvimento do irmão no Esquema PC, um escândalo de desvio de dinheiro que movimentou US$1 bilhão dos cofres públicos. Indignados, manifestantes foram às ruas pedir impeachment. No dia 29 de setembro de 1992, Fernando Collor de Mello foi destituído de seu cargo com 441 votos na Câmara dos Deputados. Quem assumiu foi o vice Itamar Franco. Atualmente, Collor é senador de Alagoas.

O sociólogo Fernando Henrique Cardoso foi eleito, em 1994, com 54% dos votos no primeiro turno. FHC ganhou projeção nacional enquanto Ministro da Fazenda do governo Itamar por ter sido o idealizador do Plano Real, que estabilizou a economia. Seu primeiro mandato foi marcado por diversas privatizações de empresas importantes para a economia brasileira, como a Vale do Rio Doce e o Sistema Telebrás, quando surgiram denúncias de favorecimento a empresas internacionais. Outro esquema de corrupção denunciado foi a compra de parlamentares em troca de voto favorável à emenda da constituição que permitiu a reeleição de FHC. O segundo mandato foi marcado pela recessão econômica, pelo desemprego e pelo racionamento de energia. 


Na sua quarta tentativa, em 2002, o ex-metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva se elegeu presidente com mais de 58 milhões de votos. A gestão caracterizou-se pela estabilidade econômica, diminuição da dívida externa e negociações com a Organização Mundial do Comércio (OMC). A grande marca do governo foram as medidas populistas, com a implementação de programas como Bolsa Família, Luz para Todos, Fome Zero e Prouni. Entretanto, Lula enfrentou uma crise política em decorrência de denúncias de corrupção, como o escândalo dos Correios e o Mensalão, um esquema de compra de votos de parlamentares. Apesar disso, 27,9 milhões de pessoas saíram da pobreza durante o mandato de Lula, o que alavancou sua popularidade e resultou na sua reeleição e na eleição de sua sucessora, a economista Dilma Rousseff. 

O movimento feminista nos países muçulmanos

Na quinta-feira, a SARI abordou os feminismos que tiveram origem nos países muçulmanos. A palestra “Feminismo Islâmico no Oriente Médio” teve como participante a professora Cila Lima, mestre em História Social pela USP e doutoranda em História Social pela USP. Ela é autora do livro Women and Islamism: the cases of Egypt and Turkey. A conferência explicou o surgimento dos movimentos, suas influências e reivindicações e suas diversas vertentes.

A palestrante iniciou falando sobre a falta de neutralidade de gênero nas Relações Internacionais. “Dentre tantas dimensões em que isso ocorre, cito três: a guerra, quando combatentes estupram mulheres e meninas, os tratados internacionais econômicos e políticos, que nem sempre trazem projetos específicos para cada gênero e a visão de mundo do que é ser um ser social”.

Além do feminismo islâmico, existe também a presença do feminismo secular, que não possui influência da religião. As lutas pela emancipação das mulheres muçulmanas existem desde a década de 1920. As primeiras manifestações do feminismo secular aconteceram no Egito, influenciadas pelo modo de vida francês. Seis décadas depois, surgem os movimentos de mulheres islâmicas, que deram origem ao chamado feminismo islâmico.  

Os feminismos seculares têm como característica a territorialidade, tendo cada país sua vertente, de acordo com suas características culturais e étnicas. ”Especificamente nos países muçulmanos, ele luta contra o casamento de crianças, que eu chamo de estupro legalizado, e a mutilação do genital feminino, que é bastante grave no mundo muçulmano, e pela inserção da mulher na educação“, explicou a mestre, que também destacou a luta pela igualdade de gênero dentro da família.

Diversas reflexões sobre o feminismo secular fizeram com que o movimento começasse a se dissecar. Foi quando surgiu o feminismo islâmico, um grupo com um paradigma religioso, baseado nos códigos do Islã. “Elas queriam afirmar que é possível ser islâmica e ser feminista. Eu chamo de movimento político-religioso. Seu eixo principal é a reinterpretação do Alcorão. Elas fazem isso através de livros e de cursos educacionais e querem tirar a visão patriarcal, misógina e masculinista do livro sagrado do Islã”, definiu Cila.

Alunos do curso de Relações Internacionais falaram da importância do estudo do tema para a formação de um internacionalista. “Nós temos que vivenciar todos os aspectos, não focarmos apenas no nosso meio doméstico e ver as problemáticas dos outros países. No islamismo, as mulheres são muito reprimidas por questões religiosas. Então, temos que problematizar essas coisas e ver o que acontece sob o olhar deles”, afirmou Monalisa Barcellos, aluna do 2º período. “Ser internacionalista é estar aberto a todo tipo de cultura e religião. O feminismo islâmico nos dá base para entender como as mulheres islâmicas reagem a uma cultura que, nós, ocidentalistas, consideramos opressora. Por exemplo, o uso do hijab é algo que muitos dos que estão de fora consideram inadmissível, mas é preciso entender também que é algo que vem da cultura islâmica e que para ser feminista não é preciso abdicar desse objeto. Então, além do feminismo, a palestra mostra a diferença cultural entre as pessoas e que precisamos não só entendê-las, mas também respeitá-las”, destacou Leonardo Fonseca, que cursa o 3º período.


Em entrevista ao ICHS em Foco, Cila Lima comentou a importância de trazer a discussão para o ambiente universitário. “Precisamos conhecer sobre os países muçulmanos. Até 10 anos atrás, não se sabia nada sobre eles. Quando eu comecei minha pesquisa no mestrado, especialistas me perguntavam se existia feminismo islâmico. Nós não devemos olhar com discriminação para esses países, temos que entender que eles não são tão diferentes de nós como pensamos. E, também, é muito importante saber que as mulheres muçulmanas estão em movimento, elas estão nos movimentos sociais, estão lutando, elas não são auto repressoras”.