quarta-feira, 8 de julho de 2015

Superpopulação de capivaras é hospedeira de carrapatos que oferecem riscos ao campus


O Lago Açú, mais conhecido como o lago do Instituto de Agronomia (IA), na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), chama a atenção de alunos e visitantes por sua beleza, mas também pela presença do maior roedor do Brasil, a capivara. Apesar de ser símbolo do lago, a superpopulação desse animal se tornou uma questão de saúde pública por ser reservatório da bactéria causadora da febre maculosa em seres humanos.

O carrapato-estrela infectado pela bactéria Rickettsia rickettsii é o vetor da doença. Esse carrapato pode ser encontrado em animais de grande porte, cães, aves domésticas, roedores e, principalmente, na capivara, o maior de todos os reservatórios naturais. O hospedeiro é picado pelo carrapato e a bactéria é introduzida na corrente sanguínea do animal. Nos seres humanos, a picada pode causar a febre maculosa, que é uma doença cujos sintomas são parecidos com os da dengue, o que dificulta o diagnóstico.


Os responsáveis pelo Departamento de Epidemiologia e Saúde Pública (DESP), professores de Medicina Veterinária da Universidade, alertaram à reitoria sobre os riscos da proliferação do carrapato contaminado através de um memorando (Memorando nº 71/2014, de 19 de maio de 2014) e solicitaram medidas profiláticas, como panfletos informativos e placas de advertência, mas não obtiveram resposta. “Como departamento de saúde pública, nos sentimos responsáveis caso ocorra algum caso. Cabe à Universidade notificar. Se produzissem um folder explicativo ou colocassem placas ao redor do lago, a população entenderia o perigo”, conta Paulo César de Souza, coordenador do DESP.

Placa de advertência da USP no campus de Riberão Preto (Foto: Divulgação)
Em outras universidades federais do país que contam com a presença de capivaras no campus, foram diagnosticados casos de febre maculosa. Na Universidade Federal de Goiás (UFG), o professor de agronomia Rommel Bernardes da Costa contraiu a doença e o diagnóstico só foi preciso porque ele alertou os médicos de que esteve próximo a uma área com a presença de capivaras. Após o caso, a Universidade isolou a área e investiu em formas de conscientização como palestras. Em Piracicaba (SP), no campus da Universidade de São Paulo (USP), uma aluna de pós-graduação foi infectada. Além disso, quatro pessoas morreram ano passado na cidade vítimas da doença.

Segundo o professor Carlos Alexandre Matias, as capivaras foram introduzidas na Rural pelo Instituto de Zootecnia (IZ) para criação voltada ao consumo de sua carne. O projeto foi abandonado e as capivaras se abrigaram no lago. Essa negligência resultou na superpopulação dos roedores, agravada pela falta de um predador natural, como jacaré e onça, o que não é viável no ambiente universitário.

Da esquerda para direita: Carlos Alexandre Matias, Paulo César de Souza, Isabele Angelo e Huarrison Santos, responsáveis pelo DESP 

O DESP discute formas de tentar resolver o problema. Uma das opções e a mais recomendada pelas normas de saúde pública é a eutanásia das capivaras. “Um projeto alternativo levaria muito tempo, gastaria muito dinheiro, exporia muita gente e não resolveria o problema”, afirma Paulo, defensor da medida. Existem alternativas, como a castração dos machos, um meio de amenizar o problema a longo prazo e também solucionar a questão da superpopulação. Transferir os animais para outra área é também um método, mas apresenta riscos. “Não se pode transferir a capivara para um habitat em que o impacto da doença nos animais é desconhecido. Não podemos mudar o problema de lugar e introduzir a doença em um ambiente em que ela não está preparada para ser recebida”, alerta o professor Huarrisson Santos.


Ananda Cantarino, Giulia Escuri, Matheus Queiroz e Vitória Quirino

Grupos de proteção lutam pelos direitos dos animais abandonados na Rural

O campus da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) localizado em Seropédica é marcado pelo recorrente abandono de animais. Cachorros, gatos e até equinos são largados pelo espaço com doenças que colocam em risco os mais de 7000 alunos. A falta de iniciativa da Universidade para sanar o problema mobilizou alunos e professores que criaram grupos de proteção para tratamento e bem estar desses animais.



O Grupo Katumbaia, Projeto Castração, Comissão de Bem Estar Animal, Grupo Pet, Hospital Veterinário de Pequenos Animais (HVPA), Educação Ambiental, Docinho Solidário e o Projeto SOS Animal trabalhavam de forma isolada e passaram a integrar o Projeto de Controle Populacional e Bem Estar de Animais de Companhia da UFRRJ, que foi institucionalizado em 2013. São grupos com metodologias diferentes, mas que formam uma aliança na luta contra o abandono e os maus tratos de animais.

O projeto Docinho Solidário foi fundado em 2011 por Daniele J. Barbosa e Naiara Rossato, alunas do curso de Medicina Veterinária. Durante uma aula, elas avistaram um gato que precisava de tratamento e o levaram para o Hospital Veterinário da Rural. O resultado: uma dívida de 400 reais. “Entramos em desespero, então encontramos uma forma de ganhar dinheiro rápido, por isso começamos a fazer docinhos tradicionais para vender. Em uma semana conseguimos arrecadar a quantia e as pessoas pediram para a gente continuar, porque gostavam do docinho e sabiam que estavam ajudando”, conta Naiara. A venda dos doces ocorre, na maioria das vezes, no Instituto de Veterinária (IV). 

Da direta para esquerda: Isabel, Daniele, Naiara, Viviane e Lucilene, alunas do curso de Medicina Veterinária e integrantes do Docinho Solidário


O único apoio oferecido pela Universidade era acesso à impressão de panfletos e a mobilidade de um carro, que foi cortado depois que a reitoria descobriu que elas levaram um cachorro abandonado na Rural para uma feira de adoção no Rio de Janeiro. Além da venda dos doces, o projeto aceita doações de medicamentos e ingredientes e possui uma parceria com o HVPA, que oferece prazos maiores para o pagamento das despesas.

Existem casos de animais com esporotricose no alojamento. Esse é um exemplo de zoonose, doença que pode ser transmitida de bichos para seres humanos. “Falta interesse da própria Universidade, estamos fazendo um trabalho que ela deveria resolver, resgatar animais errantes com potencial zoonótico. Eles deveriam ao menos divulgar nosso trabalho”, relata Daniele.



Segundo Rosana Colatino, coordenadora do Projeto SOS Animal, são abandonados cerca de 15 animais por semana. Esse número tende a aumentar em férias, greves e feriados prolongados. “Os alunos vão embora para casa e querem se livrar da responsabilidade, então abandonam o animal no alojamento e esperam que alguém fique para cuidar, mas não fica ninguém. Além disso, a população de Seropédica também abandona seus animais nesse espaço”.

Rosana preferiu ter sua imagem não divulgada para evitar que pessoas coloquem mais animais sob sua responsabilidade 
O Art. 164 da Lei nº 9605/98 (Lei de Crimes Ambientais), prevê o crime de abandono para aqueles que deixarem animais em propriedade alheia sem consentimento do proprietário. A pena prevista é de 15 dias a 6 meses de detenção ou multa. Apesar de abandono ser um crime federal, a aplicabilidade da lei é comprometida pela falta de fiscalização. Os grupos lutam para a reitoria instalar câmeras e colocar placas informativas no campus para fiscalizar e punir os criminosos. Rosana acredita que a solução do problema está na educação. “A questão é muito mais cultural do que médica-veterinária. A Lei de Crimes Ambientais precisa ser ensinada. Se as pessoas souberem que podem ser detidas ou multadas, elas vão parar de abandonar animais aqui dentro”.

Ouça relatos da coordenadora do Projeto SOS Animal sobre maus tratos e abandonos de animais:


GALERIA DE FOTOS
...


Para saber mais dos trabalhos dos grupos, acesse suas páginas no Facebook.
Grupo Katumbaia
Hospital Veterinário de Pequenos Animais
Docinho Solidário
Projeto SOS Animal

ABANDONO E MAUS TRATOS A ANIMAIS É CRIME! Se você presenciar algum caso, denuncie!

Ananda Cantarino, Giulia Escuri, Matheus Queiroz e Vitória Quirino