O brasileiro assiste a uma
fase histórica da política. O desenrolar dos fatos vem acontecendo tão
rapidamente que está cada vez mais difícil de acompanhar – e de entender. As
últimas semanas trouxeram notícias e reviravoltas capazes de surpreender até o
mais criativo roteirista de séries.
O cenário se agravou após a
divulgação da delação premiada do senador Delcídio do Amaral (PT-MS) à
força-tarefa da Operação Lava-Jato, investigação que descobriu a existência de
um grande esquema de corrupção na Petrobras. No relato, ele afirma que o
ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva subornou o ex-diretor da estatal Nestor
Cerveró e outras testemunhas em troca de silêncio, e que a presidenta Dilma
Rousseff nomeou o ministro Marcelo Navarro para o Superior Tribunal de Justiça
(STJ) com o objetivo de proteger empreiteiros. Os trechos foram divulgados pela
revista Isto É.
No início de março, a 24ª fase
da Operação Lava-Jato foi deflagrada e Lula, suspeito de receber doações
milionárias e imóveis de empreiteiras envolvidas no escândalo, é um dos alvos.
A Polícia Federal realizou buscas no apartamento e na instituição do
ex-metalúrgico e o levou para prestar depoimento sob condução coercitiva
expedida pelo juiz Sérgio Moro, que comanda a operação. O ex-presidente
classificou a ação da PF como “arbitrária, ilegal e injustificável”, alegando
que “jamais se recusaria a prestar um depoimento”.
Duas semanas depois, Lula foi
anunciado como Ministro da Casa Civil, causando indignação de parte da
população e dos opositores. O novo ministro ganharia foro privilegiado e
passaria a ser investigado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e não mais por
Moro. No mesmo dia, o juiz derrubou o sigilo das ligações telefônicas de Dilma
e Lula e divulgou para a imprensa. A presidenta afirmou que a ação violou a lei
e a Constituição e que vai tomar medidas judiciais cabíveis. Além disso, a
comissão de deputados que irá analisar o impeachment de Rousseff foi anunciada;
dos 65, 40 têm o nome envolvido na Lava-Jato.
“A possibilidade de um
impeachment de Dilma traz à tona um questionamento do nosso sistema político.
Porque se ela cai sem respeitar os ritos constitucionais nos leva a uma crise
de legitimidade. Há menos de dois anos atrás, ela foi eleita. A grande questão
é a derrubada ou não da Dilma e o que isso pode representar em termos de
mudança, não apenas do ponto de vista jurídico ou político, mas a guinada que o
Estado pode dar em uma direção ou outra. A falta de coerência das ações de
Dilma abriu espaço para que as forças opositoras se organizassem e colocassem
seu governo em cheque sob o pretexto de corrupção, mas o que eles também
propõem é um novo alinhamento do Estado brasileiro”, afirmou o professor Miguel
Henriques de Carvalho, do Departamento de Economia.
Polarização da população
Através de mobilização pelas
redes sociais, os movimentos Brasil Livre e Vem Pra Rua convocaram os
brasileiros insatisfeitos com a gestão de Dilma Rousseff para protestarem
contra a corrupção e o governo da presidenta no dia 13 de março. Já no dia 18,
a Central Única dos Trabalhadores (CUT) organizou uma manifestação a favor da
democracia, contra o impeachment e em defesa de Lula e Dilma. Os grandes
públicos de ambos os eventos em todo o Brasil são reflexo de uma forte divisão
política no país.
“Isso deixa bem claro que estamos
passando por uma crise de poder. Temos dois lados claramente opostos e um deles
acaba sobressaindo. Seria a oposição contra nosso governo por ter bastante
apoio da mídia convencional. Parece que o grito deles é mais alto e que sufoca
o que a gente está pensando. Então, essa polarização existe, ela é real, mas
tem um lado que se destaca e que tem esse poder de influência”, declarou Carla
Andressa, estudante do 3º período de História.
Segundo Miguel, as eleições já
foram polarizadas e essa mesma polarização se repete agora. “Se você não quiser
se manifestar, você pode também. A novidade do ponto de vista da discussão
pública sobre isso é que existem fóruns, como as redes sociais, em que você
pode se manifestar e compartilhar notícias que driblem o monopólio dos grandes
meios de comunicação. Isso dá espaço para uma discussão mais firme e
acentuada”.
A professora Rejane Moreira,
do Departamento de Comunicação, discorda que haja uma polarização. “É muito
complicado afirmar que isso existe porque essa ideia é uma produção discursiva.
O mais grave disso tudo é que exista um discurso que acaba ganhando a gente. Eu
acho muito reducionista para pensar a conjuntura. É muito mais uma imagem que
estamos reforçando do que uma percepção clara. Não acho que o Brasil esteja
polarizado; se estiver, pior para ele, porque polarizar significa reduzir
alternativas”.
A cobertura midiática
A idoneidade das reportagens
realizadas pela mídia hegemônica tem sido questionada por parte da população.
Ainda que os veículos de comunicação sempre tenham usado de sua abrangência
para reforçar seus ideais políticos, o mito da imparcialidade é cada vez mais
rompido.
“A gente vê a grande mídia valorizando certos
personagens da história e culpabilizando previamente personagens outros. Se
pensarmos pelos grandes meios de comunicação, não estamos nem um pouco bem
informados porque são interesses que são vendidos como verdades. A gente acaba
lendo uma versão, uma leitura pessoal desses grandes meios, que não
necessariamente refletem a atual conjuntura. Temos que falar urgentemente de
democratização da comunicação, pois o monopólio está aí para ser quebrado”,
afirmou o aluno Mateus Cabot, do 7º período de Jornalismo.
As grandes empresas
hierarquizam a informação de acordo com suas conveniências e para conseguir uma
cobertura completa, o cidadão precisa dispor de meios alternativos de
notícia. “A mídia corporativa não me
representa. Existem diversas outras formas de se conhecer as coisas. Entro
muito em blogs, leio muitos artigos. As pessoas ainda estão confusas, mas dão
algumas pistas para gente de como entender algumas ideias. A mídia é muito
vasta, muito ampla e com a internet, facilitou nossa busca por outras formas de
conhecimento”, disse Rejane.
A participação do jovem
A juventude é de extrema
importância em um momento como esse e, cada vez mais, vemos a participação
ativa da Geração Z em debates políticos, seja nas ruas ou através das redes
sociais. “A gente tem muita vontade de falar, aprender e participar de tudo.
Isso é uma coisa muito característica da nossa geração e ajuda na construção de
caráter da pessoa. É importante que todos consigam falar sobre nosso governo e formar
a própria crítica, sem ser totalmente influenciado pelo senso comum. É bem
positivo, podemos construir coisas legais”, alegou Carla.
Entretanto, Mateus não vê essa
participação como gostaria. “Os jovens que têm acesso a outros tipos de
informação não compactuam com ambos os lados e não comparecem a ambas as
manifestações. Eu acho que deveria surgir algum tipo de movimento para que a
posição da juventude seja reconhecida”.
Possíveis soluções para a crise
Carla Andressa: “É muito claro
que a gente tem uma pressa e uma seletividade na hora de apontar o dedo. O
certo seria que nós tentássemos ver com calma, tentar analisar todos os estágios
da crise, mas não reproduzindo discursos, não sendo massa de manobra. Não é só
apontar para um lado e falar ‘Se a gente tirar esse aqui do poder, vai dar tudo
certo’. Não é uma coisa tão simples, nem tão rápida. Requer bastante conhecimento
da população, que eu acho que é o que está faltando”.
Mateus Cabot: “Uma reforma
política seria necessária para se pensar uma nova forma de governar. Agora, o
impeachment é desnecessário e injusto, nós tivemos uma eleição há menos de dois
anos. Delação premiada não é prova, é indício. Até que se prove o que é dito, o
impeachment não se faz válido. Nós não negamos que o governo tenha suas falhas,
mas deve-se defender o direito da presidenta de assumir seu cargo, visto que
ela não é réu de nada. Também, uma investigação justa para todos os
envolvidos”.
Rejane Moreira: “Com pequenas
ações, muito estudo, muito trabalho e muita percepção, eu acho que podemos
fazer alguma coisa. Agora, do ponto de vista institucional, eu não consigo
pensar porque eu não estou no Congresso. Eu estou na Universidade, nas minhas
batalhas diárias”.
Miguel Henriques de Carvalho: “O
caminho que eu espero pelo ponto de vista democrático é que se tenha respeito
pela Constituição de 1988, que a soberania popular exercida no voto seja
respeitada. Do ponto de vista econômico, o governo precisa ter uma mudança
radical na condução da política econômica, que vá mais ao encontro da campanha
que realizou em 2014 do que de suas últimas ações, que pressupõe a retomada do
Estado no gasto público, a conservação dos direitos trabalhistas e a busca de
uma política interna que atenda aos interesses nacionais. Agora, se isso irá
acontecer é uma discussão que está totalmente em aberto”.