sábado, 26 de março de 2016

Alunos e professores do ICHS comentam momento político atual

O brasileiro assiste a uma fase histórica da política. O desenrolar dos fatos vem acontecendo tão rapidamente que está cada vez mais difícil de acompanhar – e de entender. As últimas semanas trouxeram notícias e reviravoltas capazes de surpreender até o mais criativo roteirista de séries.

O cenário se agravou após a divulgação da delação premiada do senador Delcídio do Amaral (PT-MS) à força-tarefa da Operação Lava-Jato, investigação que descobriu a existência de um grande esquema de corrupção na Petrobras. No relato, ele afirma que o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva subornou o ex-diretor da estatal Nestor Cerveró e outras testemunhas em troca de silêncio, e que a presidenta Dilma Rousseff nomeou o ministro Marcelo Navarro para o Superior Tribunal de Justiça (STJ) com o objetivo de proteger empreiteiros. Os trechos foram divulgados pela revista Isto É.

No início de março, a 24ª fase da Operação Lava-Jato foi deflagrada e Lula, suspeito de receber doações milionárias e imóveis de empreiteiras envolvidas no escândalo, é um dos alvos. A Polícia Federal realizou buscas no apartamento e na instituição do ex-metalúrgico e o levou para prestar depoimento sob condução coercitiva expedida pelo juiz Sérgio Moro, que comanda a operação. O ex-presidente classificou a ação da PF como “arbitrária, ilegal e injustificável”, alegando que “jamais se recusaria a prestar um depoimento”.

Duas semanas depois, Lula foi anunciado como Ministro da Casa Civil, causando indignação de parte da população e dos opositores. O novo ministro ganharia foro privilegiado e passaria a ser investigado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e não mais por Moro. No mesmo dia, o juiz derrubou o sigilo das ligações telefônicas de Dilma e Lula e divulgou para a imprensa. A presidenta afirmou que a ação violou a lei e a Constituição e que vai tomar medidas judiciais cabíveis. Além disso, a comissão de deputados que irá analisar o impeachment de Rousseff foi anunciada; dos 65, 40 têm o nome envolvido na Lava-Jato.

“A possibilidade de um impeachment de Dilma traz à tona um questionamento do nosso sistema político. Porque se ela cai sem respeitar os ritos constitucionais nos leva a uma crise de legitimidade. Há menos de dois anos atrás, ela foi eleita. A grande questão é a derrubada ou não da Dilma e o que isso pode representar em termos de mudança, não apenas do ponto de vista jurídico ou político, mas a guinada que o Estado pode dar em uma direção ou outra. A falta de coerência das ações de Dilma abriu espaço para que as forças opositoras se organizassem e colocassem seu governo em cheque sob o pretexto de corrupção, mas o que eles também propõem é um novo alinhamento do Estado brasileiro”, afirmou o professor Miguel Henriques de Carvalho, do Departamento de Economia.

Polarização da população

Através de mobilização pelas redes sociais, os movimentos Brasil Livre e Vem Pra Rua convocaram os brasileiros insatisfeitos com a gestão de Dilma Rousseff para protestarem contra a corrupção e o governo da presidenta no dia 13 de março. Já no dia 18, a Central Única dos Trabalhadores (CUT) organizou uma manifestação a favor da democracia, contra o impeachment e em defesa de Lula e Dilma. Os grandes públicos de ambos os eventos em todo o Brasil são reflexo de uma forte divisão política no país.

“Isso deixa bem claro que estamos passando por uma crise de poder. Temos dois lados claramente opostos e um deles acaba sobressaindo. Seria a oposição contra nosso governo por ter bastante apoio da mídia convencional. Parece que o grito deles é mais alto e que sufoca o que a gente está pensando. Então, essa polarização existe, ela é real, mas tem um lado que se destaca e que tem esse poder de influência”, declarou Carla Andressa, estudante do 3º período de História.

Segundo Miguel, as eleições já foram polarizadas e essa mesma polarização se repete agora. “Se você não quiser se manifestar, você pode também. A novidade do ponto de vista da discussão pública sobre isso é que existem fóruns, como as redes sociais, em que você pode se manifestar e compartilhar notícias que driblem o monopólio dos grandes meios de comunicação. Isso dá espaço para uma discussão mais firme e acentuada”.

A professora Rejane Moreira, do Departamento de Comunicação, discorda que haja uma polarização. “É muito complicado afirmar que isso existe porque essa ideia é uma produção discursiva. O mais grave disso tudo é que exista um discurso que acaba ganhando a gente. Eu acho muito reducionista para pensar a conjuntura. É muito mais uma imagem que estamos reforçando do que uma percepção clara. Não acho que o Brasil esteja polarizado; se estiver, pior para ele, porque polarizar significa reduzir alternativas”.

A cobertura midiática

A idoneidade das reportagens realizadas pela mídia hegemônica tem sido questionada por parte da população. Ainda que os veículos de comunicação sempre tenham usado de sua abrangência para reforçar seus ideais políticos, o mito da imparcialidade é cada vez mais rompido.

 “A gente vê a grande mídia valorizando certos personagens da história e culpabilizando previamente personagens outros. Se pensarmos pelos grandes meios de comunicação, não estamos nem um pouco bem informados porque são interesses que são vendidos como verdades. A gente acaba lendo uma versão, uma leitura pessoal desses grandes meios, que não necessariamente refletem a atual conjuntura. Temos que falar urgentemente de democratização da comunicação, pois o monopólio está aí para ser quebrado”, afirmou o aluno Mateus Cabot, do 7º período de Jornalismo.

As grandes empresas hierarquizam a informação de acordo com suas conveniências e para conseguir uma cobertura completa, o cidadão precisa dispor de meios alternativos de notícia.  “A mídia corporativa não me representa. Existem diversas outras formas de se conhecer as coisas. Entro muito em blogs, leio muitos artigos. As pessoas ainda estão confusas, mas dão algumas pistas para gente de como entender algumas ideias. A mídia é muito vasta, muito ampla e com a internet, facilitou nossa busca por outras formas de conhecimento”, disse Rejane.

A participação do jovem

A juventude é de extrema importância em um momento como esse e, cada vez mais, vemos a participação ativa da Geração Z em debates políticos, seja nas ruas ou através das redes sociais. “A gente tem muita vontade de falar, aprender e participar de tudo. Isso é uma coisa muito característica da nossa geração e ajuda na construção de caráter da pessoa. É importante que todos consigam falar sobre nosso governo e formar a própria crítica, sem ser totalmente influenciado pelo senso comum. É bem positivo, podemos construir coisas legais”, alegou Carla.

Entretanto, Mateus não vê essa participação como gostaria. “Os jovens que têm acesso a outros tipos de informação não compactuam com ambos os lados e não comparecem a ambas as manifestações. Eu acho que deveria surgir algum tipo de movimento para que a posição da juventude seja reconhecida”. 

Possíveis soluções para a crise

Carla Andressa: “É muito claro que a gente tem uma pressa e uma seletividade na hora de apontar o dedo. O certo seria que nós tentássemos ver com calma, tentar analisar todos os estágios da crise, mas não reproduzindo discursos, não sendo massa de manobra. Não é só apontar para um lado e falar ‘Se a gente tirar esse aqui do poder, vai dar tudo certo’. Não é uma coisa tão simples, nem tão rápida. Requer bastante conhecimento da população, que eu acho que é o que está faltando”.  

Mateus Cabot: “Uma reforma política seria necessária para se pensar uma nova forma de governar. Agora, o impeachment é desnecessário e injusto, nós tivemos uma eleição há menos de dois anos. Delação premiada não é prova, é indício. Até que se prove o que é dito, o impeachment não se faz válido. Nós não negamos que o governo tenha suas falhas, mas deve-se defender o direito da presidenta de assumir seu cargo, visto que ela não é réu de nada. Também, uma investigação justa para todos os envolvidos”.

Rejane Moreira: “Com pequenas ações, muito estudo, muito trabalho e muita percepção, eu acho que podemos fazer alguma coisa. Agora, do ponto de vista institucional, eu não consigo pensar porque eu não estou no Congresso. Eu estou na Universidade, nas minhas batalhas diárias”.

Miguel Henriques de Carvalho: “O caminho que eu espero pelo ponto de vista democrático é que se tenha respeito pela Constituição de 1988, que a soberania popular exercida no voto seja respeitada. Do ponto de vista econômico, o governo precisa ter uma mudança radical na condução da política econômica, que vá mais ao encontro da campanha que realizou em 2014 do que de suas últimas ações, que pressupõe a retomada do Estado no gasto público, a conservação dos direitos trabalhistas e a busca de uma política interna que atenda aos interesses nacionais. Agora, se isso irá acontecer é uma discussão que está totalmente em aberto”.